Quando a violência ainda é invisível 2/4

Atualizado: 9 de set.

No artigo “A violência começa muito antes da primeira agressão” falamos de como a violência começa a ser construída, mas existe outro aspecto que merece atenção: ela não cresce apenas porque um homem sente emoções difíceis, ela cresce quando determinadas formas de reagir deixam de ser questionadas.
Todo homem experimenta medo, frustração, vergonha e raiva, essas emoções fazem parte da experiência humana e, por si só, não representam perigo. O problema aparece quando elas passam a justificar comportamentos que antes seriam inaceitáveis. É nesse momento que surgem frases aparentemente inocentes, mas que revelam uma mudança importante na maneira de interpretar a própria responsabilidade.
– "Ela sabe como me provocar."
– "Se ela tivesse ficado quieta, nada disso teria acontecido."
– "Eu só perdi a cabeça."
– "Foi um momento de nervosismo."
À primeira vista, essas frases parecem apenas tentativas de explicar o que aconteceu, na prática, fazem algo muito mais profundo: deslocam a origem do comportamento para outra pessoa. Aos poucos, o homem deixa de olhar para a própria reação e passa a acreditar que seu comportamento depende exclusivamente da atitude de quem está à sua frente.
Esse é um mecanismo perigoso porque preserva a autoimagem, enquanto o problema estiver sempre no outro, não existe motivo para mudar. A esposa torna-se a culpada pela irritação, os filhos passam a ser vistos como desobedientes, o ambiente de trabalho torna-se injusto e a vida parece uma sequência de pessoas difíceis de lidar. A consequência é previsível: quanto menos responsabilidade alguém assume sobre a própria reação, maior tende a ser sua necessidade de controlar (olha o controle aparecendo novamente aí) tudo o que acontece ao redor.
Talvez seja justamente aqui que muitos homens se enganem. Eles acreditam que controlam porque são fortes, quando, na verdade, controlam porque perderam a capacidade de suportar determinadas emoções sem recorrer à imposição. A força verdadeira aumenta a liberdade das pessoas que convivem conosco, o controle faz exatamente o contrário, reduz essa liberdade para diminuir nossa própria insegurança.
Essa diferença pode parecer sutil, mas muda completamente a dinâmica de uma família. Autoridade não exige que todos tenham medo, respeito não depende de intimidação, liderança não precisa de vigilância constante. Quando a presença de um homem faz com que todos pensem duas vezes antes de falar, não existe ordem, existe tensão, e tensão permanente nunca é um ambiente saudável para um relacionamento.
É justamente por isso que a violência doméstica não deve ser compreendida apenas como um problema de agressividade. Em muitos casos, ela é o resultado final de uma forma equivocada de exercer poder. Um homem que acredita precisar controlar todas as situações dificilmente aceitará ser contrariado, corrigido ou frustrado sem interpretar isso como uma ameaça pessoal. Cada discordância deixa de ser apenas uma diferença de opinião e passa a representar uma perda de autoridade. A partir daí, qualquer reação parece legítima para recuperar a posição que imagina ter perdido.
Esse processo raramente acontece de maneira consciente. Creio que nenhum homem acorda dizendo a si mesmo que pretende intimidar a esposa ou gerar medo nos filhos, ele apenas continua respondendo da mesma forma todas as vezes em que se sente inseguro, desrespeitado ou impotente. O problema é que comportamentos repetidos deixam de parecer escolhas e começam a ser vistos como parte da personalidade, é quando surgem expressões como "eu sou assim", "sempre fui desse jeito" ou "quem me conhece sabe como eu sou".
Essa talvez seja uma das maiores armadilhas do comportamento humano, aquilo que repetimos durante anos acaba parecendo identidade, quando muitas vezes é apenas um padrão aprendido. E se padrões podem ser aprendidos, também podem ser desaprendidos. Não rapidamente, nem apenas com boa vontade, mas a partir do momento em que deixam de ser invisíveis.
Por isso acredito que prevenir a violência exige muito mais do que ensinar alguém a controlar a raiva, exige ajudar o homem a reconhecer o caminho que percorre antes dela aparecer. A explosão quase nunca é o primeiro problema, ela é apenas o primeiro momento em que todos conseguem enxergar um processo que já estava acontecendo havia muito tempo.





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