top of page

Quando a violência ainda é invisível (3 de 4)

Foto do escritor: Nei Machado
Nei Machado
17 de ago.
4 min de leitura
Por que agir cedo ainda é a melhor forma de proteger uma família
Por que agir cedo ainda é a melhor forma de proteger uma família

Todos os anos surgem novas campanhas de conscientização, em relação a violência contra a mulher. As leis são aperfeiçoadas, os mecanismos de denúncia são ampliados, a rede de proteção se fortalece, e acho fantástico todo este trabalho, penso que tudo isso é necessário e precisa continuar existindo. Ainda assim, os números da violência doméstica continuam nos lembrando de uma pergunta incômoda: por que continuamos chegando tão tarde? Talvez porque quase todo o nosso esforço esteja concentrado em interromper a violência depois que ela já apareceu, enquanto dedicamos muito menos atenção ao processo que a constrói (se você não leu os dois artigos anteriores peço que considere lê-los).

Se esperamos um homem levantar a mão para começar a agir, já chegamos tarde. A verdadeira prevenção começa quando ainda existe apenas irritação constante, necessidade de controlar, incapacidade de lidar com frustração e uma família que aprendeu a viver em estado de alerta. É nesse momento que ainda é possível reorganizar a estrutura antes que ela produza consequências maiores.

É justamente nesse ponto que a maioria das intervenções falha, espera-se que o homem procure ajuda depois da agressão, quando o relacionamento já está profundamente desgastado, a confiança foi rompida e, muitas vezes, as consequências jurídicas e familiares já fazem parte da realidade. Sem dúvida, esse atendimento continua sendo necessário. Mas a pergunta que ainda ecoa e talvez seja a mais importante: por que esperamos chegar tão longe para reconhecer que alguma coisa precisava ser reorganizada?

Na minha experiência, a maior parte dos homens não procura ajuda porque acredita ser violento, procura porque percebe que está irritado o tempo todo, porque perdeu a paciência com os filhos, porque o casamento parece viver em estado permanente de tensão, porque sente que qualquer contrariedade o desestabiliza mais do que deveria. Alguns chegam dizendo que estão ansiosos, outros falam de estresse, de excesso de trabalho ou de dificuldades no relacionamento, pouquíssimos chegam dizendo: "acho que estou construindo um padrão de controle". E talvez essa seja justamente a questão, os padrões mais perigosos quase nunca se apresentam com esse nome.

É por isso que acredito ser mais útil observar comportamentos do que esperar grandes acontecimentos. Um homem que já não consegue ouvir uma opinião diferente sem interpretar aquilo como desrespeito merece atenção, o mesmo vale para aquele que sente necessidade de vencer todas as discussões, que responde à vulnerabilidade endurecendo a postura, que considera pedir perdão uma demonstração de fraqueza ou que precisa ter a última palavra para sentir que continua no controle da situação. Nenhum desses comportamentos significa, por si só, que alguém se tornará um agressor, mas todos revelam uma forma de funcionamento que, se nunca for questionada, pode produzir consequências cada vez mais destrutivas.

Talvez o maior erro seja imaginar que mudança acontece apenas quando alguém decide agir diferente. Comportamentos mudam, padrões permanecem. Uma pessoa pode passar meses controlando a própria explosão e, ainda assim, continuar dominada pelo mesmo medo, pela mesma insegurança e pela mesma necessidade de controlar quem está ao seu redor. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que permaneceu intacto encontra outra maneira de aparecer, é por isso, que aquilo que já falei várias vezes por aqui continua ainda valendo, que mudanças sustentáveis quase nunca começam pelo comportamento, elas começam pela compreensão da estrutura que produz esse comportamento.

Essa é a razão pela qual a primeira etapa do meu trabalho não consiste em procurar culpados nem em oferecer respostas prontas, antes de pensar em mudança, procuro entender como aquele homem aprendeu a funcionar. Quais padrões organizam suas decisões? Como ele reage quando se sente frustrado? O que costuma interpretar como ameaça? De que maneira construiu a ideia de autoridade, força e respeito? Enquanto essas perguntas permanecem sem resposta, qualquer tentativa de mudança corre o risco de atuar apenas sobre os sintomas.

No Método PRUMO, esse primeiro momento recebe o nome de Mapeamento PRUMO. A proposta não é reconstruir toda a história de vida nem fazer o homem reviver cada episódio do passado. O objetivo é identificar a lógica que organiza seu funcionamento atual. Porque, quando essa lógica começa a ficar clara, também começa a ficar evidente por que determinados conflitos se repetem, por que algumas reações parecem automáticas e por que certas mudanças nunca conseguem durar.

Talvez você tenha chegado ao final deste texto pensando em alguém próximo, talvez tenha reconhecido comportamentos que já presenciou dentro da própria família, ou talvez algumas dessas descrições tenham provocado um desconforto maior porque falaram de você. Se isso aconteceu, resista à tentação de responder apenas com culpa ou defesa, culpa raramente reorganiza alguém, negação também não, a mudança começa quando um homem consegue olhar para si com honestidade suficiente para admitir que alguns padrões não surgiram hoje, mas também não precisam acompanhá-lo pelo resto da vida.

A violência nunca produz apenas uma vítima, ela atinge relacionamentos, destrói a confiança, modifica a maneira como uma família inteira aprende a conviver e, muitas vezes, atravessa gerações. Talvez seja justamente por isso que a prevenção não comece quando alguém levanta a mão contra outra pessoa. Ela começa muito antes, no momento em que um homem decide deixar de organizar a própria vida em torno do medo, da necessidade de controle e da justificativa permanente, para aprender algo muito mais difícil, e muito mais transformador: GOVERNAR A SI MESMO ANTES DE TENTAR GOVERNAR QUALQUER OUTRA PESSOA.

 


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page