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A mentira confortável

Foto do escritor: Nei Machado
Nei Machado
há 7 dias
4 min de leitura
Por que é tão difícil enxergar a própria participação nos problemas
Por que é tão difícil enxergar a própria participação nos problemas

Você já percebeu que muitas das explicações que damos para os nossos problemas soam mais como desculpas do que como verdade? São aquelas frases que repetimos no trabalho, em casa ou para nós mesmos diante de uma dificuldade: “não tenho tempo”, “não nasci pra isso”, “ela sempre me culpa”, “meu chefe é impossível”, “eu não sei conversar sobre sentimentos”.

Na hora, essas explicações parecem fazer sentido, e algumas até possuem uma parte de verdade. O problema é que, muitas vezes, elas não explicam o que está acontecendo, elas apenas nos ajudam a conviver com aquilo sem precisar encarar algo mais desconfortável: a nossa própria participação no problema.

Quando a verdade dói, quase sempre é mais fácil encontrar um culpado. Pode ser o governo, o salário, o chefe, a esposa, a falta de oportunidades ou as circunstâncias da vida. Em muitos casos existe mesmo uma parcela de responsabilidade do lado de fora, nem tudo é culpa nossa, mas existe uma diferença entre reconhecer fatores externos e transformar tudo em justificativa para não olhar para dentro.

Isso acontece porque a mente tenta nos proteger. Se eu acredito que o problema está completamente fora de mim, não preciso mexer em nada, não preciso rever comportamentos, admitir erros, reconhecer medos ou assumir responsabilidades. Posso continuar exatamente como estou. E, embora isso traga algum alívio no curto prazo, costuma cobrar um preço alto ao longo dos anos.

Na minha experiência atendendo homens, existem algumas frases que aparecem com frequência.

A primeira delas é: “eu não tenho tempo”.

Claro que a vida é corrida, trabalho, contas, filhos, responsabilidades, mas muitas vezes o problema não é a falta de tempo e sim a forma como usamos o tempo que temos. Conheço homens que dizem não ter tempo para cuidar da saúde, mas passam horas todas as noites rolando o celular sem perceber, outros que afirmam não conseguir investir em si mesmos, mas conseguem encontrar tempo para qualquer atividade que sirva como distração. Não estou falando de preguiça, estou falando de prioridade.

Às vezes dizemos que não temos tempo quando, na verdade, não queremos lidar com aquilo que exige mudança.

Outra frase muito comum é: “sou assim mesmo”.

Essa é uma das mais difíceis de perceber porque costuma vir disfarçada de sinceridade, até parece autoconhecimento, mas muitas vezes é apenas resignação. Um homem explode facilmente e diz que sempre foi nervoso, outro homem evita qualquer conversa mais profunda e afirma que não leva jeito para falar sobre sentimentos, outro se distancia emocionalmente da esposa e dos filhos porque acredita que demonstrar afeto simplesmente não faz parte da sua personalidade.

O problema é que essa frase transforma comportamentos aprendidos em identidade, como se aquilo que foi construído ao longo da vida tivesse nascido conosco. E quando um comportamento passa a ser tratado como essência, desaparece também a possibilidade de mudança.

A terceira frase aparece quando o assunto é pedir ajuda.

“Se eu falar sobre isso, vão pensar que sou fraco.”


Curiosamente, muitos homens que conseguem pedir ajuda para reformar uma casa, carregar um sofá, aprender uma profissão ou resolver um problema técnico encontram enorme dificuldade para admitir que não estão conseguindo lidar com algo dentro de si.

Talvez porque fomos ensinados que fragilidade é sinal de fracasso, que o homem deve suportar tudo sozinho, falar sobre medos, inseguranças ou dores emocionais é uma demonstração de fraqueza. Mas a realidade raramente funciona dessa forma.

O que vejo com frequência não são homens sofrendo porque pediram ajuda. O que vejo são homens acumulando anos de silêncio até que esse silêncio aparece em outro lugar: na ansiedade constante, na irritação que surge por qualquer motivo, na dificuldade de dormir, no afastamento emocional das pessoas que mais amam ou naquela sensação permanente de estar carregando um peso que não conseguem explicar.

Nem sempre mentimos para nós mesmos de forma consciente, na maioria das vezes acreditamos sinceramente nas histórias que contamos, esse é justamente o motivo pelo qual elas são tão difíceis de perceber.

Um homem recebe uma promoção e começa a cometer erros que normalmente não cometeria, outro sonha durante anos com uma oportunidade e, quando ela finalmente chega, encontra motivos para adiar decisões importantes, já vi homens que perdem a paciência dentro de casa e atribui tudo ao trânsito, ao estresse ou ao comportamento dos filhos, sem perceber que talvez esteja carregando algo muito mais antigo.

Muitas vezes o problema não está apenas na situação, está na interpretação que fazemos dela, na narrativa que construímos para explicar nossos comportamentos. Essas narrativas conseguem proteger o ego por algum tempo, mas também nos impedem de enxergar aquilo que realmente precisa ser enfrentado.

Eu poderia terminar este artigo com uma lista de passos para gerar mudanças na sua vida, mas acredito que a questão mais importante vem antes de qualquer técnica.

Quais explicações você tem usado repetidamente para justificar situações que se repetem há anos? Quais áreas da sua vida permanecem exatamente iguais apesar das promessas que você faz para si mesmo? Quais comportamentos você continua chamando de personalidade quando, talvez, sejam apenas padrões que nunca foram questionados?

Não tenho a pretensão de responder essas perguntas por você. Meu objetivo aqui é apenas acender uma luz sobre algo que costuma passar despercebido, porque, em muitos casos, o maior obstáculo não é o problema que enfrentamos, é a história que construímos para não precisar enfrentá-lo.

E talvez o início de qualquer transformação real aconteça justamente quando encontramos coragem para trocar uma justificativa confortável por uma resposta verdadeira.

 

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