Série Agosto Lilás - Quando a violência ainda é invisível 1/4


Quando pensamos em violência doméstica, a imagem que normalmente vem à mente é a da agressão física: um tapa, um empurrão, um soco, uma porta batendo, um grito que interrompe o silêncio da casa. Essas cenas são marcantes porque tornam a violência visível, o problema é que elas também criam a impressão de que tudo começou naquele instante, mas não, raramente começa.
Quando uma agressão acontece, quase sempre existe uma história anterior, ela foi sendo construída em pequenas decisões, justificativas e formas de reagir que, repetidas ao longo do tempo, deixaram de causar estranhamento. Por isso, olhar apenas para a explosão é enxergar o último capítulo de um processo que já vinha reorganizando aquela relação muito antes.
Compreender esse processo não significa diminuir a responsabilidade de quem agride, significa reconhecer que comportamentos não surgem prontos, eles são aprendidos, repetidos e, muitas vezes, normalizados. Se a violência é construída, ela também pode ser interrompida antes de alcançar sua forma mais destrutiva.
Existe uma ideia bastante difundida de que homens violentos pertencem a uma categoria completamente diferente dos demais homens, como se fossem facilmente identificáveis ou naturalmente inclinados à agressão. A realidade costuma ser mais desconfortável, muitos trabalham, sustentam suas famílias, são respeitados profissionalmente, participam da igreja e levam uma vida aparentemente comum, o que os diferencia, muitas vezes, não é a imagem que projetam, mas a maneira como aprenderam a lidar com aquilo que acontece dentro deles.
É comum imaginar que a violência nasce da raiva, na prática, a raiva costuma ser apenas a emoção que aparece por último. Antes dela existem experiências muito menos visíveis: medo, insegurança, vergonha, frustração, sensação de fracasso ou perda de controle. Nenhuma dessas emoções produz violência por si só. O problema começa quando elas deixam de ser compreendidas e passam a ser administradas através do controle.
Eu falei em artigos anteriores que alguns homens tentam controlar a própria ansiedade trabalhando sem parar, outros se isolam, outros endurecem emocionalmente e há aqueles que começam, pouco a pouco, a tentar controlar as pessoas ao redor. É uma mudança silenciosa, em vez de aprender a governar as próprias reações, o homem passa a acreditar que conseguirá recuperar sua estabilidade controlando o ambiente, a esposa ou a família.
Esse controle raramente aparece de forma explícita, quase nunca começa com ameaças ou agressões, muitas vezes se apresenta como proteção, preocupação ou autoridade. E aqui existe uma diferença importante, governar não é o mesmo que controlar, todo homem deve exercer governo dentro da própria casa, a questão é que o governo produz segurança, enquanto o controle produz medo, um organiza a convivência, o outro tenta administrar a própria insegurança através das pessoas ao redor. É nesse ponto que as perguntas deixam de demonstrar interesse e passam a funcionar como fiscalização, conselhos tornam-se imposições, discordâncias passam a ser interpretadas como desrespeito. O homem continua acreditando que está apenas "colocando ordem", sem perceber que sua necessidade de controlar cresceu na mesma proporção em que diminuiu sua capacidade de lidar com a própria vulnerabilidade.
Nesse momento, talvez ainda não exista violência física, mas o relacionamento já começou a mudar, a esposa passa a escolher melhor as palavras, os filhos aprendem a perceber o humor do pai antes de fazer um pedido, o ambiente deixa de ser organizado pela confiança e passa a ser organizado pela tentativa de evitar conflitos. O medo ainda não foi “batizado”, mas já influencia a forma como todos convivem.
É justamente por isso que considero perigosa a ideia de que a violência começa quando alguém levanta a mão contra outra pessoa, em muitos casos, quando isso acontece, a intimidação, o controle e a desqualificação já fazem parte da rotina há muito tempo. A agressão física não inaugura a violência, ela apenas torna visível um padrão que vinha sendo construído silenciosamente.
Talvez esse seja o aspecto mais difícil de reconhecer, a violência quase nunca entra em uma casa de uma só vez. Ela vai reorganizando a convivência aos poucos, até que comportamentos antes impensáveis deixam de causar estranhamento e esse é o momento em que vale a pena interromper o processo, não apenas para evitar a próxima agressão, mas para impedir que um homem continue acreditando que controlar os outros é a única maneira de lidar com aquilo que nunca aprendeu a governar dentro de si.





Comentários