A ansiedade nem sempre é sua inimiga
- Nei Machado

- há 4 dias
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Você já sentiu aquele nó no peito antes de uma reunião importante, ou aquela inquietação quando precisa conversar com a sua mulher sobre grana, ou quando o filho não volta no horário? Então você descobre o vilão da história: a ansiedade. A primeira reação natural é achar que a ansiedade é algo ruim, um inimigo que precisa ser eliminado. Só que, se a gente olhar de perto, ela costuma estar fazendo um trabalho: avisando que alguma coisa precisa ser reorganizada.
Pensa comigo: seu corpo e sua mente não criaram ansiedade por capricho. Ela é um alarme, nem sempre elegante, nem sempre proporcional, mas um sinal. Às vezes ela aparece para proteger, uma proteção mal calibrada é claro. Quando algo no seu trabalho está sugando mais do que deveria, quando você empilha funções em casa sem pedir ajuda, ou quando evita conversas importantes por medo do conflito. A pergunta que vale é: o que sua ansiedade está tentando proteger?
Às vezes está tentando proteger a sensação de controle. O homem percebe que existem áreas da vida que não consegue controlar e, sem perceber, começa a viver como se precisasse compensar isso através da vigilância. Então pensa mais, analisa mais, revisa mais cenários, tenta antecipar cada possibilidade e passa a acreditar que preocupação é uma forma de prevenção. É como se a mente dissesse que, se ele pensar o suficiente, conseguirá evitar a dor, o problema é que existe um limite. Chega um momento em que a preocupação deixa de ser ferramenta e passa a ser desgaste. O que começou como uma tentativa de proteção se transforma em exaustão.
Outras vezes a ansiedade protege uma identidade. Muitos homens cresceram aprendendo que precisam dar conta, nem sempre porque alguém ensinou isso explicitamente, mas porque observaram pais, avôs e outras referências masculinas vivendo dessa maneira. Viram homens que não reclamavam, que carregavam responsabilidades sozinhos e que seguiam trabalhando mesmo quando já estavam no limite, aos poucos passaram a associar valor pessoal com capacidade de suportar peso, então assumem mais tarefas do que conseguem administrar, evitam pedir ajuda, escondem preocupações e dizem que está tudo bem quando claramente não está. Não porque gostam disso, mas porque existe uma parte deles convencida de que relaxar é perigoso, como se baixar a guarda por alguns minutos pudesse fazer tudo desmoronar.
Existe ainda uma situação mais silenciosa, e talvez mais difícil de perceber, nem sempre estamos fugindo de algo que vai acontecer, muitas vezes estamos fugindo de algo que já aconteceu. Uma conversa que nunca foi resolvida, uma rejeição que ficou mal acomodada, uma perda, uma decepção ou simplesmente uma fase da vida em que não havia espaço para sentir o que precisava ser sentido. A vida continua andando, as responsabilidades não esperam, os boletos continuam chegando e as pessoas continuam dependendo de nós. Então seguimos em frente. O problema é que aquilo que foi empurrado para trás nem sempre fica para trás, muitas vezes continua viajando conosco.
Talvez por isso alguns homens não consigam ficar em silêncio, outros precisam estar constantemente ocupados, alguns trabalham além do necessário, outros se afundam em distrações que ajudam a preencher qualquer espaço vazio. Não porque sejam fracos ou incapazes de lidar com a realidade, mas porque encontraram maneiras de não ouvir certas partes de si mesmos, no fim, aquilo que evitamos sentir raramente desaparece, normalmente encontra outro caminho. Aparece no corpo, na irritação, no cansaço constante, na falta de paciência, na distância emocional dentro do casamento ou naquela sensação difícil de explicar de que a vida está seguindo em frente enquanto algo dentro de nós ficou parado em algum ponto do caminho.
Por isso tenho cada vez mais dificuldade em enxergar a ansiedade como inimiga. Inimigos costumam querer destruir, a ansiedade, na maioria das vezes, está tentando proteger, e o problema é que nem toda proteção continua sendo útil para sempre, existe proteção que vira prisão, existe defesa que continua funcionando mesmo depois que o perigo já passou, existe alerta disparando vinte e quatro horas por dia para um incêndio que não existe mais.
Talvez por isso a pergunta mais importante não seja como acabar com a ansiedade, talvez a pergunta seja o que ela está tentando proteger. Porque quando começamos a responder essa pergunta, normalmente descobrimos que a conversa nunca foi apenas sobre ansiedade, era sobre excesso de responsabilidade, era sobre medo, controle, dor e coisas que foram ficando pelo caminho enquanto a vida exigia que continuássemos andando.
E, curiosamente, é justamente nesse momento que a ansiedade começa a perder força. Não porque foi combatida, mas porque finalmente foi compreendida.
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